quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Santo Inácio (Carira em tempos de heroísmo)

De 1899 a 1911, a intendência da Vila de São Paulo (atual Frei Paulo) sofreu forte influência do alferes Manuel Hipólito Rabelo de Morais, que por aqui começou a se estabelecer em 1880, com a compra de terras, onde fundou o arraial do Gameleiro.
Por essa época, segundo a tradição oral, os habitantes do Carira sofriam intensa hostilidade da polícia, principalmente aos domingos, na feira: o desenvolvimento do Carira incomodava Manuel Hipólito, que não queria ver prejudicada a feira do Gameleiro. Assim começou o século XX em nossa terra.
A severidade com que o intendente tratava os carirenses causou enérgica reação. Notabilizou-se Martinho de Souza Freire pela coragem de enfrentar a gente do alferes e defender o pequenino Carira.
Outro morador com importante papel nesses confrontos foi o jovem José Antônio dos Santos, apelidado de Santo Inácio. Certa vez, farto das agressivas investidas da polícia, combinou com Manuel Amâncio e com outros amigos uma resposta à altura da arbitrariedade que sofriam. Armaram-se de cacetes e, com extremo ímpeto, expulsaram os soldados na próxima visita indesejada que estes fizeram à feira do Carira. Este episódio consta do folheto intitulado "História de Carira", de autoria de José Francisco dos Santos (Juca de Zé de Santo), neto de Santo Inácio.
Quanto à origem, ele era filho de Antônio Inácio de Souza, membro dos Inácios, família que participou do desbravamento de boa parte do atual município baiano de Pedro Alexandre, em localidades como Quati, Deserto, Tanque Novo, Lagoa das Pedras, Pindoba, Cipó de Leite e outras; e a maioria dos seus irmãos não morava no Carira: Geminiano Antônio de Souza mudou-se para o sul da Bahia, mas deixou filhos em nossa região; João, apelidado de João Grosso ou João das Abóboras, e Sancha moravam em Lagarto; e Rufina residia no Descoberto.
Em Pedro Alexandre, à época pertencente a Jeremoabo, Santo foi dono de duas propriedades: o Campo Formoso e as Abóboras. Esta última foi vendida a Napoleão Emídio da Costa, primeiro prefeito de Frei Paulo. Nos atuais limites entre Pedro Alexandre e Carira, pertenceu a ele a Lagoa da Jurema, próximo aos Perdidos e Divisa; e em Carira, terras no Descoberto, para onde se mudou.
No início deste texto nos limitamos a citar um único atrito entre moradores do Carira e a polícia. Bem sabemos que essa não foi a única demonstração da valentia e coragem de Santo Inácio. Mas a sua mais importante obra foi o cemitério do Descoberto, que perpetuou seu nome. Segundo o senhor Paulo Alves de Oliveira (Paulo dos Perdidos), a pretensão inicial era reservar uma pequena área de terra para o enterro de natimortos ou recém-nascidos que morressem pagãos. Mas pela abertura de algumas exceções, adultos também foram enterrados, e aquela modesta ideia acabou se tornando um cemitério comunitário - Cemitério de Santo Inácio, como ainda hoje o chamamos, não pela consagração ao santo, mas pelo apelido do fundador. Após a morte dele, aquele campo santo passou aos cuidados do seu genro Maximino Alves de Oliveira (Maximino dos Perdidos).
Já se perdeu de nossa memória a data do falecimento desse vulto carirense. José Alves dos Santos (Zequinha do Sorvete), também neto dele, afirma ter sido em 1961, portanto há mais de cinquenta anos. Também já morreram quase todos os seus filhos, bem conhecidos em Carira e região: Ananias José dos Santos (Zé de Santo), sogro do vereador José Francisco da Silva (Zé Guarda); Maria Madalena de Oliveira, mãe do senhor Paulo Alves de Oliveira (Paulo dos Perdidos); Olívia Maria de Jesus; Manuel Martins dos Santos (Manezinho de Santo); Josefa Maria de Jesus (Zefinha dos Olhos d'Água); Genário Antônio dos Santos, pai do comerciante José Alves dos Santos (Zequinha do Sorvete); Margarida Maria de Jesus, única remanescente, com mais de 95 anos de idade; e outros.
A conclusão deste texto não seria possível sem a gentil colaboração dos senhores Paulo Alves de Oliveira (Paulo dos Perdidos) e José Alves dos Santos (Zequinha do Sorvete), netos de Santo Inácio. Aqui expressamos nosso agradecimento a eles e a Gregório Martins Nunes, Cesária Maria dos Santos e Vicencia Maria de Souza, que também nos ajudaram. Pesquisamos as obras CARIRA, de João Hélio de Almeida, e HISTÓRIA DE CARIRA, folheto de literatura de cordel, de autoria de José Francisco dos Santos (Juca de Zé de Santo).
Cemitério de Santo Inácio, no Descoberto, Carira.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Curiosidade do velho Carira (História dentro da História)

Havia no Carira antigo uma casa que pertenceu a alguns proprietários. Ela tornou-se famosa na condição de bodega de Zezé Martins, neto do vaqueiro João Martins e um dos maiores comerciantes da época. Talvez pudéssemos compará-la com as mercearias de hoje. Segundo pessoas mais velhas, era o destino certo para quem procurasse secos e molhados. O produto mais citado por elas é charque, localmente chamado de jabá. Não sabemos situar precisamente essa casa, mas ao que tudo indica ficava na atual rua coronel Manuel Dantas.
Para melhor compreensão do que dizemos, resolvemos postar um texto da obra "RETALHOS DE HISTÓRIA (ATRAVÉS DE UM CENTENÁRIO DESCONHECIDO)", de Olímpio Rabelo de Morais. Foi publicada em 1966, um ano após se completar um século de fundação de Carira. O texto em questão é intitulado HISTÓRIA DENTRO DA HISTÓRIA. Com a palavra, o próprio Olímpio:


"Quem conheceu o CARIRA de 1950 atrás, há de se lembrar, como eu me lembro bem, da bodega de seu ZÉ MARTINS, um dos pontos domingueiros mais frequentados da Vila. Casa localizada à entrada da feira, chegada natural e atraente aos feirantes, conheci estabelecimento comercial dos mais movimentados da época.
Antes que eu a conhecesse, porém, ela a mim me conheceu, à luz do meu 10 de dezembro de 1911.
Esquecer aqui o velho HENRIQUE LAMEU, seu construtor e dentro dela, na primeira década do século atual, o maior comerciante de seu tempo, seria falta imperdoável, da qual, ordinariamente, nos acusa, absorvidos pelo Progresso, o nosso descuido na decadência do passado.
Presenciei menino, em 1918, nesta mesma casa, ser alvejado a tiros de "mauser", em discussão, pelo soldado Morais, o subdelegado FLORO RABELO.
Já em 1920, morador-proprietário se conhecia CAPITÃO CHIQUINHO, cuja desavença com a sociedade local, muitas vezes levada pela incompreensão do meio, foi motivo para que, em uma noite de SÃO JOÃO, se concentrassem sobre ela, em fogo cerrado das batalhas a busca-pés, festejos indesejáveis. Tão ao gosto do povo essa brincadeira primitiva que só veio a desaparecer do nosso folclore como que por imperativo salutar de Civilização. Apesar de tudo, via-se no NORDESTINO-CAPITÃO homem de espírito adiantado ao meio ambiente: construiu em sua residência - que até então ninguém o fizera, em todo o povoado, no atraso e pobreza de nossa gente - cisterna e platibanda. Trouxe, por isso, ele, ao mesmo tempo, conforto ao lar e à povoação, estética.
No último domingo de novembro de 1929 desmontava, às cinco horas da manhã, na bodega de seu ZÉ MARTINS, LAMPIÃO com seus nove cabras, de passagem para Capela.
Dela recolhi ainda, pelas narrativas sempre agradáveis do velho JOVINO MARTINS, os fatos mais importantes na formação da vida local.
Tem esta casa, pois, a sua história dentro da História, a viver hoje na decadência do passado, condição natural do Progresso.
Neto do velho JOÃO MARTINS, fundador de MÃE CARIRA, como ninguém, conhecia ele, o velho JOVINO, os acontecimentos mais importantes aqui ocoridos em épocas remotas. Ouvi-lo era para mim um prazer.
Velhinho baixo, alvo, comunicativo na prosa, apenas alfabetizado, bigode aparado, clássica bengala à mão, passo miúdo - assim conheci seu JOVINO, já maduro, de cuja memória quero me valer hoje na revivescência da nossa formação histórica. Faleceu há pouco tempo, em São Paulo, com mais de 90 anos.
Fundada há cem anos CARIRA DE JOÃO MARTINS, nesta distância já sentimos desaparecer, mais e mais, os últimos vestígios do nosso passado.
Antes que se nos apague de todo, na distância do tempo, esse contato de geração a geração, desejaria me valer da memória, como principal ou quase única fonte de informações recolhidas dos nossos antepassados, para registro dos fatos, na preservação do que possa restar ainda para formação do nosso patrimônio histórico.
É isso que eu pretendo fazer, no silêncio comemorativo deste centenário de 1965, legando às futuras gerações estes "retalhos de história", como contribuição que se possa dar, talvez das menos valiosas."


A modéstia com que Olímpio Rabelo conlui o texto é descomunal. Enganou-se redondamente nosso primeiro prefeito se achou que foi contribuição "das menos valiosas" o que ele escreveu sobre a história de Carira.
O que saberíamos nós carirenses dos períodos primitivos e remotos de nossa história se não fosse a obra escrita desse nosso vulto? Muito pouco. É inegável a importância da carreira e obra política de Olímpio, as quais culminaram com nossa emancipação, pela Lei Estadual n° 525A, de 1953; mas também é bom enfatizar sua preciosa contribuição escrita: RETALHOS DE HISTÓRIA (ATRAVÉS DE UM CENTENÁRIO DESCONHECIDO) e MEMÓRIAS.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Hilários

Em Setembro de 1914, o primeiro bispo de Aracaju, Dom José Tomás Gomes da Silva, visitou o Carira. Na ocasião foi ampliada a extinta capela da Santa Cruz. Naquele momento festivo o bispo se hospedou na casa de José Hilário, um dos mais ilustres moradores do povoado.
Outra razão pela qual os Hilários são citados na história de Carira é o fato de José Hilário estar entre os primeiros desbravadores do Cipó de Leite, região em que se plantava muito algodão, uma das riquezas locais daquela época, num período chamado Ciclo do Algodão, do início do século XX até meados da década 1920.
A propósito, os Hilários eram os filhos de Manuel Hilário de Freitas. Formavam uma grande família Freitas, estabelecida no interior de Carira, principalmente no Preá e nas Contendas. Além de José Hilário citamos Tomás, Militão, Henrique, Simplício, Cassiano, Félix e Antônio Hilário. Sabemos que havia outros. Segundo descendentes, eles tinham parentesco com os irmãos Silvino Brás da Silva e Zequinha Brás.
Em seguida, falamos um pouco das famílias de alguns:

- Simplício José de Freitas era morador do Preá. De seus filhos ainda existe dona Sabina Maria da Conceição, senhora idosa, moradora do Descoberto.

- Cassiano José de Freitas era proprietário de terras na região das Contendas. Seu filho José Ramiro Hilário de Freitas era pai de Pedro Hilário de Freitas, conhecido como Pedro Ramiro, senhor bem idoso mas de uma lucidez e vigor impressionantes. Pedro Ramiro é pai de uma das mais conhecidas famílias das Contendas. Mora hoje na Vila Nova, mais perto dos filhos.

- Félix morava no Preá, onde tinha terras. Seu filho Antônio Joaquim de Freitas (Tonho de Félix) era pai de uma das mais conhecidas e tradicionais famílias daquela localidade. Um de seus filhos chamava-se José Joaquim de Freitas e era muito conhecido na região pelo apelido Lábios de Rosa. Não faz muito tempo que morreu Lábios de Rosa, em Itabaiana, onde morava. Também filha de Tonho de Félix é dona Zefinha, mãe do vereador Jailton Martins de Carvalho (Jailton do Preá), atual presidente da Câmara de Vereadores de Carira , e de José Martins de Carvalho Neto (Martins Carvalho).

- Antônio Hilário de Freitas era também estabelecido nas Contendas. Seus filhos, bem conhecidos em Carira, eram, entre outros, Gabriel Hilário Sobrinho, João Hilário de Freitas (João dos Santos) e Maria Jovita Aragão. Das filhas, ainda é viva dona Josefa Maria de Freitas (Zezé), idosa, moradora do centro de Carira.
Gabriel Hilário Sobrinho tinha propriedade rural nas adjacências dos Mocós; mudou-se na velhice para a companhia dos filhos, no Rio de Janeiro.
João Hilário de Freitas (João dos Santos) era também proprietário de terras nas imediações dos Mocós, além de outras no Posto de Adonias e próximo a Malhada Nova, em Pedro Alexandre. Teve muitos filhos, entre os quais, José Welis de Freitas, que reside no centro de Carira.
Maria Jovita Aragão criou os filhos em Carira. Um deles é o agente dos correios Moisés Aragão, que por muitos anos foi chefe da agência postal de Carira. Atualmente já está aposentado, mas tornou-se uma das referências daquela casa.

Infelizmente não chegamos a saber se José Hilário constituiu família. Quanto aos demais, Militão residia na região das Contendas; Henrique e Tomás, no Preá. Segundo parentes, este último morreu solteiro.

Já faz muito tempo que os Hilários concluiram sua tarefa neste mundo. Seus descendentes, tanto os famosos quanto os anônimos, se multiplicam, como os de qualquer outra família, de tal maneira que a noção de parentesco entre eles já começa a se desfazer. Esperamos ter sido úteis em render essa homenagem a uma das mais tradicionais famílias de nossa Carira.

Para a elaboração desta postagem contamos com a preciosa colaboração do amigo José Welis de Freitas. Agradecemos também a gentileza de Pedro Hilário de Freitas (Pedro Ramiro), Sabina Maria da Conceição, Josefa Maria de Freitas (Dona Zezé) e sua filha Maria do Carmo (Carminha), José Martins de Carvalho Neto, Vicencia Maria de Souza e Maria de Lurdes Costa Almeida (Lurdinha).
Foi-nos muito proveitosa a leitura das seguintes obras: CARIRA, de João Hélio de Almeida; RETALHOS DE HISTÓRIA, de Olímpio Rabelo; MEMÓRIAS, de Olímpio Rabelo; e MOMENTOS DE MINHA VIDA, de Antônio Conrado de Souza. 


Republicação de um texto postado em 8 de agosto de 2010 no antigo blog CARIRA EM FOTOS.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Páginas de violência na história de Carira

Durante o século XX, muita gente acreditava que o mundo não chegaria ao ano 2000. Estava selado o destino da humanidade. O dia primeiro de janeiro de 2000 serviu de desmentido.
Não foi diferente no fim do século XIX: qualquer trovão mais ruidoso que de costume prognosticava o fim dos tempos, que não chegariam a 1900.
Por essa época não eram boas as referências do Carira, devido às atrocidades cometidas por Chico Vicente. Foi incumbido o alferes Bananeira de reprimir os atos daquele criminoso.
Por fim, Chico Vicente matou Zé Tabua e raptou-lhe a mulher. Tempos depois foram mortos em Alagoas.
Eram tempos obscuros aqueles! Não havia muita diferença entre polícia e bandidos, dada a violência praticada por gente de ambos os lados.
As diligências policiais, que em tese trariam segurança, acabavam tirando o sossego dos moradores do longínquo povoado. O intendente da Vila de São Paulo, atual Frei Paulo, era o alferes Manuel Hipólito Rabelo de Morais, morador do Gameleiro, a quem se atribuía extrema severidade no tratamento dado aos habitantes do Carira. Nem sempre esse abuso de autoridade foi aceito passivamente. Exemplo disso foram os atritos com a família de Martinho de Souza, que resultaram em baixas para os subordinados do alferes.
Vira-se essa página de violência. Mas ainda antes de Manuel Hipólito deixar a intendência começa Monte a se celebrizar no crime. Nada o intimidava; nem a dureza dos castigos que o alferes reservava para quem ousasse desafiá-lo.
Em 1912, ano da morte de Manuel Hipólito, nomeia-se Francisco Simões de Almeida (Chiquinho Simões) para subdelegado de polícia. A partir dessa nomeação a autoridade policial passa a ser um morador do Carira. Atende-se nesse caso ao interesse do intendente José de Padre.
Em 1915, numa tentativa de dar cabo de Monte, parentes dele acabam matando sua amásia, Flor, e ferindo Beijo, filho do casal. Não tardou o revide: com um tiro de bacamarte Monte põe fim à vida de seu tio Sabino. A extensa carreira criminosa de Monte não se encerra aqui, mas nos limitamos a tratar dos crimes que tiveram o Carira como palco. Em meio à tensão provocada por tanta criminalidade, exercia Manuel Rabelo de Morais a dura e arriscada tarefa de ser subdelegado de polícia nestes confins de sertão.
Chegamos a 1918. Avança o século XX, e com ele as mesmas barbaridades. O soldado Morais tenta, sem sucesso, matar o subdelegado Florentino Rabelo de Morais (Floro Rabelo). Em seguida deserta para Bebedouro, atual Coronel João Sá. Esse crime teve a agravante de ser cometido contra uma autoridade. A subdelegacia passa às mãos de Martinho de Souza.
Entramos na década de 1920. A teia de intrigas e mortes na região segue desenfreada, e nela também está o subdelegado Brasilino Meneses. Pela indisposição com os Isídios, família destas imediações, Brasilino perdeu um de seus homens, nos atuais limites entre Carira e Frei Paulo . Em 1922, após insultos à família do ex-subdelegado Martinho de Souza, torna-se inevitável o confronto, que culmina com a morte de Brasilino.
Em junho de 1923, o comerciante Zé Boteco atira em Jason Tavares, de influente família frei-paulistana. Dessa vez a razão foram ciúmes: Zé Boteco desconfiava que sua mulher era seduzida por Jason.
Em dezembro de 1925, Andrelino, irmão de Monte, assassina o subdelegado José Conrado de Souza. Revoltado com tamanha audácia e covardia, Antônio Conrado de Souza (Totonho Conrado), irmão de Zé Conrado, recorreu às autoridades em Aracaju e obteve apoio para a desforra. O fato de ser irmão de Monte não livrou Andrelino de ser morto, no Cipó de Leite, onde se escondia, em janeiro de 1926.
Em 1934, nas adjacências do mesmo Cipó de Leite, o sanguinário cangaceiro Zé Baiano e comparsas de seu subgrupo, assassinam, com requinte de crueldade, o fazendeiro Martinho de Souza e seu vaqueiro, Joãozinho de Vítor. Por esta razão, cinco filhos de Martinho e alguns parentes formaram uma volante, para perseguição aos cangaceiros (foto).
Repetimos: eram tempos obscuros aqueles! Maldade e defesa da honra confundiam-se, como se uma justificasse a outra.

Para composição deste texto, servimo-nos da leitura das seguintes obras: CARIRA, de João Hélio de Almeida; RETALHOS DE HISTÓRIA, de Olímpio Rabelo; MEMÓRIAS, de Olímpio Rabelo.
Volante composta por filhos de Martinho de Souza e alguns primos, década de 1930. Foto extraída da obra MOMENTOS DA MINHA VIDA, de Antônio Conrado de Souza

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Resumo biográfico de Teodoro José de Souza

  Em 7 de janeiro de 1923, no interior do atual município de Pedro Alexandre, Bahia, nasceu Teodoro José de Souza (Teodoro Guarda); criou-se numa propriedade rural chamada Rio das Pedras, entre o Cipó de Leite e o Deserto. Era filho de José Paulino de Souza e Isabel Maria de Souza (Zabilinha), lavradores da mesma região.
Tanto quanto os outros jovens conterrâneos, teve Teodoro uma adolescência dedicada à agricultura e a outras atividades rurais. Essa rotina, somada à distância dos colégios, o impediu de freqüentar a escola. Não o impediu porém de se alfabetizar e adquirir certa escolaridade, pois neste particular pesaram seus esforços, que às vezes certos parentes interpretavam como desperdício de tempo.
Em meados da década de 1940, noivou com sua parenta Vicência Maria de Souza, filha de Martinho Nunes de Souza (Martinzinho) e Maria Alves de Souza. Mais adiante, em maio de 1946, a família da noiva mudou-se para os Tanquinhos, propriedade situada entre o Saco Torto e o Descoberto, no atual município de Carira, Sergipe. Realizou-se enfim o casamento em 15 de setembro de 1947, na já extinta capela da Santa Cruz, no Carira. O casal foi morar no Deserto, em Pedro Alexandre, onde tiveram o primeiro filho, Manuel José de Souza.
No ano de 1950, mudaram-se os três para a zona rural de Carira, onde nasceram todos os outros filhos. Tornaram-se portanto vizinhos da família de Vicência.
Com o passar dos anos aumentava a família, e outros recursos não havia a não ser as mesmas atividades rurais a que já estavam habituados. Boa parte da vida, Teodoro tirou o sustento do suor: não havia outra saída para quem era pobre.
Por duas vezes trabalhou em Paulo Afonso, por ocasião da construção da usina hidroelétrica. Chegou a trabalhar aproximadamente um ano entre o Paraná e São Paulo. Por algum tempo exerceu no D.N.O.C.S. (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas) a função de feitor, um tipo de chefe de turma. Tudo isso na primeira metade da década de 1950.
Por volta de 1957, com a ajuda de Olímpio Rabelo de Morais, primeiro prefeito de Carira, conquistou o emprego de agente fazendário. Nessa época não era nenhuma função invejável; mas, de qualquer modo, ele começava ali a colher os frutos do seu esforço pela educação. Iniciava-se então, para não mais se desfazer, o seu vínculo empregatício com o estado de Sergipe.
Foram mais de vinte anos no desempenho dessa profissão. Ao contrário da comodidade que se possa imaginar, Teodoro enfrentou muitos anos de trabalho duro, sem na maior parte deles sequer desfrutar férias. Certamente cometeu erros: não seria humano se não os cometesse. Contudo não consta nenhum grave. Vale ressaltar que ele nunca foi transferido do município de Carira. Cruzaram seu caminho muitos colegas, que em sua maioria se tornaram amigos, a exemplo do compadre José Francisco da Silva (Zé Guarda), Benvindo Martins de Carvalho, Aroaldo Chagas, Idalino de Jesus Barreto, Otoniel Ferreira do Nascimento (Nié) e outros de uma extensa lista.
Do início para a metade da década de 1970, mudou-se dos Tanquinhos para uma casa alugada na atual rua Humberto Dionísio dos Santos, bem próximo ao posto fiscal, que na ocasião também se situava ali. Meses depois, a antiga casa, onde se criaram todos os filhos, teve de ser demolida, por causa da obra de pavimentação asfáltica da rodovia BR 235. Isso lhe valeu uma indenização.
De fevereiro de 1974 a fevereiro de 1977, esteve à frente da prefeitura de Carira João Antônio da Paixão, por todos conhecido como João Carira. Nessa administração foi loteado um terreno no Saco Torto. Nascia a Vila Nova. Nessa época, havia junto ao loteamento o campo de futebol do Vila Nova, time amador de quem o bairro herdou o nome.
Sabendo da distribuição gratuita dos lotes aos que se dispusessem a construir, recorreu Teodoro ao prefeito, para a aquisição de um. Foi contemplado e em seguida construiu sua casa no nascente bairro. Na localidade já moravam algumas famílias, entre as quais a de dona Luiza Camila de Carvalho (Bizuca), moradora mais antiga da Vila Nova.
Na rua João Paulo da Conceição criaram-se o filho mais novo e alguns netos de Teodoro e Vicência, em tempos bem mais difíceis do que os atuais, pois o bairro não tinha pavimentação, nem escola, nem outros melhoramentos. A relação da família com os vizinhos sempre foi muito pacífica e amistosa.
Em 13 de junho de 1992, em Aracaju, deu-se por encerrada a missão de Teodoro neste mundo. Viveu 69 anos e deixou uma família adulta e uma viúva amparada, que ainda hoje mora na mesma casa da Vila Nova e cumpre exemplarmente dupla responsabilidade.
O autor deste texto pede desculpas por não indicar datas precisas: muitas delas se perderam de nossa memória ou não as vivenciamos.
Ser filho de Teodoro e Vicencia é um orgulho compartilhado por Manuel José de Souza, Josefa Souza de Almeida, José de Souza Neto, Guilhermina José de Souza Oliveira, Augusto de Souza, Maria de Souza Neta, José de Souza Irmão (in memoriam), Helena de Souza e Marcos de Souza.
Por fim, dizemos que Teodoro, palavra grega, significa presente de Deus. Nossos avós, em sua rudeza, provavelmente não sabiam este significado; mas nós, filhos, temos plena consciência de que nascemos com tamanho presente. Obrigado sempre, papai e mamãe.

Agradecemos ao vereador Salu de Almeida, autor de um projeto de lei que em 2002 resultou no nome de Teodoro José de Souza para uma rua da Vila Nova; e a Varcélio Vieira da Silva, que, em julho de 2010, na condição de diretor da Escola Municipal Profª Maria Esmeralda Costa, nos deu a ideia de homenageá-lo. A família expõe aqui sua gratidão para com os autores destes dois atos de extrema consideração.


Carira, 1° de janeiro de 2012.

Reedição de um texto publicado em junho de 2010 por Marcos de Souza em seu blog pessoal.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Gonçalos, uma tradição da política de Carira


Em 1948, nas proximidades do então distrito de Carira, morria o fazendeiro José Pedro Martins (Zé Gonçalo). Filho de Pedro Martins de Souza e Isabel Coleta de Jesus, era Zé Gonçalo o patriarca dos Gonçalos, tradicional família de Carira. Ainda hoje existe a casa onde ele morava, situada na atual Vila Nova, em frente à capela de Santa Rita de Cássia. À época, parte do terreno que compreende esse bairro pertencia a ele. A esposa, Joana Maria de Jesus (Joaninha Gonçalo), veio a falecer em Carira, quase trinta anos depois, em 1977, com mais de 90 anos de idade, longevidade herdada pela maioria dos filhos, alguns dos quais ainda vivos e com essa mesma faixa de idade.

Zé Gonçalo e dona Joaninha eram proprietários de terras na Pedra Grande, em Nossa Senhora da Glória, onde constituiram e criaram a maior parte da família. De lá se mudaram para o Carira, por causa do banditismo: eram tempos de cangaceiros e volantes. Tinham também propriedade no Jenipapo, município de Lagarto.

Eram pais de João Pedro Alves (João Gonçalo), Manuel Pedro Alves (Manezinho Gonçalo), João Alves Evangelista (Valista), Sinésio Alves (Sinésio Gonçalo), Francisco Pedro Alves (Chico Gonçalo), Maria Alves dos Reis (Caçula), Carmelita Maria de Souza e outros.

Assim como outras famílias de Carira, os Gonçalos tinham parentes no atual município de Pedro Alexandre. Em localidade chamada Tontinha, bem próximo ao rio do Peixe, morava Inácio Martins de Souza (Inacinho), irmão de Zé Gonçalo. O fazendeiro João Paulino de Souza (João de Inacinho), filho de Inacinho, era proprietário de terras muito conhecido naquela localidade e em toda a região. A maior parte dos filhos de João Paulino mudou-se para outras terras, três dos quais para o município de Carira: João Batista de Souza (Joãozinho de Nativa) e sua irmã dona Eugênia Souza dos Reis (Genita) moram no Descoberto; e na sede do município mora dona Maria de Souza Teles (Maria de Dionísio), mãe do comerciante José Raimundo Souza Teles (Nininho da Mercearia).

Zé Gonçalo morreu sem ver quanto sua família se tornou politicamente influente em Carira, desde a consolidação de nossa emancipação política até a atualidade.

No início de 1955, toma posse Olímpio Rabelo de Morais, primeiro prefeito de Carira, e entre os pioneiros da nossa câmara municipal já vemos o vereador João Pedro Alves (João Gonçalo). Em fins dessa gestão, quando nosso município se preparava para nova eleição, João Gonçalo, juntamente com alguns amigos, aconselhava Antônio Conrado de Souza (Totonho Conrado) a candidatar-se a prefeito. Aceito o conselho, Totonho Conrado tornou-se o segundo prefeito de Carira, com posse em 31 de janeiro de 1959.

Entre os vereadores eleitos para esse segundo período administrativo, contamos João Alves Evangelista (Valista). Mais uma vez temos um gonçalo na câmara de vereadores.

Passada a administração de Antônio Conrado de Souza, chega ao poder Antônio Dutra Sobrinho, em 31 de janeiro de 1963.  Isso se deu num momento muito turbulento da história do Brasil. No ano seguinte inicia-se um longo período de ditadura militar.

Em meio a toda a agitação provocada pela ditadura, os ventos da arbitrariedade sopram Carira: em 12 de junho de 1964 Antônio Dutra Sobrinho é destituído do poder. Em seu lugar assume Valista.
Pela primeira vez o poder executivo municipal chega às mãos de um membro dos Gonçalos, e assim foi-se mantendo sempre algum indivíduo dessa família entre os protagonistas da política carirense. Não foi porém uma conquista triunfal, pois em 21 de fevereiro de 1965 teve Valista a mesma sorte de Dutra. O governo municipal sofre intervenção militar.

Passada a tempestade, veio a calmaria, e com ela o triunfo de um genro de João Gonçalo - Aroaldo Chagas, eleito prefeito no pleito seguinte e empossado em 30 de março de 1967. Foi sucedido por Jercílio Soares de Lima, em 31 de janeiro de 1971.

Em 31 de janeiro de 1973, Aroaldo chegou novamente ao comando de nosso município. Dessa vez, com pouco mais de um ano, seu trabalho foi interrompido por um trágico acidente automobilístico que lhe tirou a vida, em 14 de fevereiro de 1974, nas adjacências de Terra Dura, município de Itabaiana. No entanto essa tragédia não apagou de nossa memória a imagem de um dos mais bem-conceituados administradores que já tivemos. Seu substituto foi o então vice-prefeito João Antônio da Paixão (João Carira).

Em fevereiro de 1977 inicia-se o mandato da prefeita Maria Neuza Alves Chagas, viúva de Aroaldo Chagas e filha de João Gonçalo. Pela primeira vez uma mulher alcança esse posto em Carira, fato que só se repetiria 32 anos depois, com a posse de Gilma Chagas. Para vice-prefeito foi eleito Juarez de Lima Oliveira, morto em 12 de janeiro de 1980. Em 1982, pouco antes do término dessa gestão, Carira chora a morte de João Gonçalo.

Em 1° de fevereiro de 1983, chega ao poder João Bosco Machado, após vencer Mauro Rodrigues dos Santos, candidato apoiado por dona Neuza. Na eleição seguinte, Bosco elege seu sucessor, José Augusto Dutra, que toma posse em 1° de janeiro de 1989. Em 1° de janeiro de 1993, volta ao poder João Bosco Machado, após sair vencedor num novo pleito eleitoral. Permaneceu no cargo até 31 de dezembro de 1996.

Como se pode ver, foi um longo período de insucessos do grupo político apoiado por dona Neuza, mas não estava encerrada ali a trajetória política da família: quando não estavam no poder, encabeçavam a oposição. Foi nesse período que surgiu Aroldoaldo Chagas (Negão), que, antes de tentar eleger-se prefeito, foi vereador, com expressiva votação, na gestão de José Augusto Dutra. Mais adiante, o jovem Geofrancio de Jesus Reis dava os primeiros passos de uma carreira política em que se elegeria por algumas vezes vereador, chegando a alcançar a presidência da Câmara Municipal. Ele é neto de dona Caçula, filha de Zé Gonçalo.

Em 1° de janeiro de 1997, após vitória contra José Augusto Dutra, toma posse Aroldoaldo Chagas (Negão). Pela vitória de seu filho, dona Neuza vê seu grupo político de volta ao poder. Terminada essa gestão, o povo de Carira reconduziu João Bosco Machado ao poder, fato que se repetiu na eleição seguinte.

No dia 7 de junho de 2009, faleceu dona Maria Neuza Alves Chagas, que tanto quanto seu marido, Aroaldo Chagas, seu pai, João Pedro Alves (João Gonçalo), e seu tio João Alves Evangelista (Valista), deixou muita saudade ao povo de Carira. Passaram os três para a vitrine de nossa história.

De 1° de janeiro de 2009 a 31 de dezembro de 2012, o município de Carira foi administrado pela prefeita Gilma Araújo Santos Chagas, mulher do ex-prefeito Aroldoaldo Chagas (Negão). O vice-prefeito foi Geofrancio de Jesus Reis. Vemos então a terceira geração dos Gonçalos mantendo uma trajetória política iniciada por João Gonçalo.

Para a composição deste texto contamos com a generosa colaboração de Eugênia Souza dos Reis (Genita), Maria Souza Teles (Maria de Dionísio), Maria Alves dos Reis (Caçula), Carmelita Maria de Souza (Carmelita da Pedra Grande), João Batista de Souza (Joãozinho de Nativa), Vicencia Maria de Souza, Cesária Maria dos Santos e Gregório Martins Nunes, e pesquisamos a obra Carira, de João Hélio de Almeida.

Posse de Aroaldo Chagas, em seu segundo mandato. Ao seu lado, a primeira-dama Maria Neuza Alves Chagas, filha de João Pedro Alves (João Gonçalo).

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Vila Nova, bairro de Carira

Em meados da década de 1970, a prefeitura (provavelmente na administração de João Antônio da Paixão, vulgo João Carira) loteou parte do Saco Torto, a pouca distância da cidade de Carira. Nascia então o povoado Vila Nova. Por lá já morava a família de Aurino de Carvalho, entre outras. Dona Luísa Camila de Carvalho (Bizuca), viúva de Aurino, é a mais antiga moradora do bairro e reside até hoje na mesma casa onde morava antes da criação do loteamento.
Com o tempo, a cidade se alastrou em direção da Vila Nova, e vice-versa, de tal modo que o povoado se tornou bairro, num dos pontos mais altos de Carira.
Alguém hoje sabe ou já indagou a causa do nome desse bairro?
As autoridades competentes o batizaram de Bairro Getúlio Vargas, mas esse nome nunca se popularizou, nunca passou de formalidade. O nome pelo qual a população sempre o chamou, desde o princípio até hoje, é Vila Nova.
Quem mais do que o povo tem força para dar nome a bairros?
Entre a atual baixa do Saco Torto e o citado loteamento havia dois campos de futebol, em que jogavam times amadores famosos na época - o do Palestra e o do Vila Nova. Era comum haver, num mesmo dia e horário, jogos nos dois campos. Depois de certo tempo foi extinto o campo do Vila Nova, e o time se mudou. Chegamos a vê-lo em outro campo nas imediações do Ponto Chique. Mas essa mudança não o impediu de emprestar, com muita espontaneidade, seu nome ao bairro. O do Palestra porém permaneceu por lá até meados da década de 90. Ainda hoje nos lembramos das partidas em que se enfrentavam Palestra, Vila Nova, Rodoviária, Travessão e outros que não nos ocorrem.
Atualmente vemos tudo completamente urbanizado. Entre a rua José Nunes da Silva e avenida 13 de Maio se situava o campo do Vila Nova, e na praça do ginásio de esportes ficava o do Palestra.

Vicencia Maria de Souza, moradora da Vila Nova, nos ajudou na obtenção destes dados.

REEDIÇÃO DE UM TEXTO PUBLICADO EM AGOSTO DE 2007
Circulação de cavaleiros pela rua Aurino de Carvalho, na 7ª Cavalgada da Vila Nova (2009)